
Modernizar o passado". Sobre uma guitarra que martelava hipnoticamente a mesma nota, em timbre distorcido, e um batuque grave e vigoroso, a voz de Chico Science abria com esse verso o disco "Da lama ao caos", em 1994. Quem ouviu entendeu que não era discurso vazio. O primeiro álbum de Chico Science & Nação Zumbi modernizava o passado e - sabe-se agora, quando o CD completa 15 anos - anunciava o futuro, com a metáfora da lama do mangue como matéria-prima da invenção. Se os fundadores da MPB dos festivais tiveram como iluminação o "Chega de saudade", de 1959, os jovens do distante (pré-internet) início da década de 1990 viram no disco de estreia dos pernambucanos o marco de sua geração.
- O CD bateu como a revolução que todos esperávamos e não sabíamos - define o produtor Kassin. - Influenciou todos da minha geração diretamente. Os anos 90 se dividem entre antes e depois deles.
O guitarrista Pedro Sá expressa outra sensação que circulou entre seus pares na época.
- Me senti representado ali.
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A fala de Sá traz embutida uma questão latente no início dos anos 90: o rock brasileiro da década anterior já não representava aquela geração.
- O rock brasileiro dos anos 80, de uma forma geral, virou as costas para o Brasil - avalia Lúcio Maia, guitarrista da Nação Zumbi. - A onda era imitar bandas inglesas e americanas. "Da lama ao caos" é uma ode à música brasileira, a proposta de uma nova forma de tocar coco, maracatu, ciranda, samba.
Ouça a faixa-título de "Da lama ao caos":
A fusão da música pop (no caso, hip hop, soul, punk rock, dub...) com gêneros tradicionais brasileiros - por outras vias, "uma retomada de coisas que os tropicalistas já tinham proposto", acredita Maia - explica em grande parte o impacto de "Da lama ao caos".
- Foi uma espécie de ovo de Colombo - interpreta o crítico Arthur Dapieve. - Muitas bandas de rock das décadas anteriores (sobretudo Mutantes, Paralamas e Titãs, mas até Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii) tinham feito tentativas mais ou menos bem-sucedidas de eliminar as contradições, ou supostas contradições, entre rock e música popular brasileira. Mas foi o Chico Science quem botou o ovo em pé.
Os reflexos do disco atingiram esferas insuspeitas da cultura nacional. O escritor Ariano Suassuna, opositor ferrenho a qualquer flerte das tradições pernambucanas com a música pop, chorou no enterro de Chico Science (morto num acidente automobilístico em 1997), de quem se declarava admirador, apesar das restrições a "seu lado Science", como dizia. Versos de "A cidade", canção de "Da lama ao caos", foram citadas num sucesso de axé music ("Xibom bombom", do grupo As Meninas). Na Cidade de Deus, o rapper MV Bill ouviu com atenção o disco, que define como "o surgimento do rock com sotaque brasileiro".
João Barone, baterista dos Paralamas (e quem deu o primeiro par de baquetas profissionais a Canhoto, então percussionista da Nação Zumbi, numa visita ao estúdio onde a banda gravava "Da lama ao caos"), nota que, para além da fusão pop-regionalismo, havia "muitas outras coisas nas entrelinhas" do CD. O compositor Silvério Pessoa ilumina algumas das entrelinhas:
- O CD traz a fala de Chico sobre a teoria da física moderna, a Teoria do Caos, ficção científica, quadrinhos, moda, cinema, em resumo, uma nova estética oferecida para uma nova geracão saturada dos "rocks". "Da lama ao caos" foi a chave certa para que a música independente perdesse o medo de enfrentar as estruturas do mercado. Mesmo vinculado a uma gravadora (Sony), foi um trabalho plenamente autoral.
As ideias que circulavam pela cabeça de Science e companhia ganharam tradução visual no encarte do CD pelas mãos de DJ Dolores. Um dos articuladores do movimento mangue bit (do qual despontou também o mundo livre s/a), ele assinou o projeto gráfico do disco.
- Havia um enorme fascínio por tecnologia, e isso é bem presente no material gráfico - lembra Dolores, que fez tudo num "computador bem ruinzinho". - Fazer música com máquinas significava para nós, naquela época, um diálogo de igual para igual com o resto do mundo.


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